Publicado por: marlenecrossa em: março 11, 2009
“Preparar para as novas tecnologias é, para uma proporção crescente de
alunos, atingir mais plenamente os mais ambiciosos objetivos da escola.”
Philippe Perrenoud
Quem já não ouviu que bom professor é aquele que usa a criatividade, que tem carisma, que sabe conquistar os alunos? Cansamos de ler ou ouvir esse tipo de colocação na imprensa, em conversas descompromissadas de mesa de bar e até de profissionais da educação. O único problema dessas frases tão lugares-comuns é o seguinte: se acreditamos que uma docência de qualidade se faz com talentos inatos como criatividade e carisma, colocamos por terra o valor de uma boa formação profissional e de recursos para aprimoramento pedagógico. Ou seja, se valorizamos somente a criatividade inata do professor, isso significa que não compreendemos o valor de uma educação que envolve formação, construção de conhecimento, diálogo e recursos.
Só para exemplificar o tipo de opiniões que são apresentadas a esse respeito, a diretora de escola há 22 anos, Maria Tereza Sbrana, afirmou em reportagem da Folha de S.Paulo intitulada “Adaptar pedagogia ao aluno do século XXI” que “a forma de aprendizado é a mesma. Recursos de vídeo ou técnicas modernas não são fundamentais. Se o professor é bom, dá conta com quadro e giz.” Na mesma reportagem, a professora Eglê Malheiros, com 60 anos de profissão, coloca que “Não adianta computador se o professor não está preparado, se não tem biblioteca.” No mesmo caderno, temos a história da diretora Sônia Maria dos Santos, que, em três anos, subtraiu gastos, multiplicou parcerias, dividiu tarefas, criou salas-ambiente, passou a documentar o desempenho dos alunos, enfeitou a escola com mosaicos e tem o hábito de pedir aos alunos que eventualmente danificam o patrimônio da escola que se responsabilizem por ele e o consertem. Acima de um relato sobre o trabalho de uma excelente profissional da educação, vem o título da matéria: “Diretora usa criatividade para reduzir abandono em 65%”. A repórter, da equipe de trainees da Folha, não conseguiu, infelizmente, perceber que estava diante de uma profissional de primeira e, para enaltecê-la, classifica-a como criativa. Criativos todos somos um pouco, mas profissionais de primeira, nem sempre. Que pena. Com esse título, muitos leitores deixaram de perceber que educação de qualidade se faz com formação de professores e com recursos e não com talentos inatos e sorte.
Vamos analisar as opiniões da professora e da diretora citadas acima em partes. Elas têm toda razão em dizer que é possível ensinar com quadro e giz e que, para usar o computador, o professor deve se preparar, o que interpreto como formar-se e informar-se a respeito do uso da tecnologia na educação. O que não se pode afirmar é que o professor criativo, mas sem recursos ou sem a formação para compreender o significado da tecnologia na educação, possa ensinar o mesmo que um professor com recursos e formação. Também não podemos achar que, se não temos biblioteca, não devemos ter computador; ou se não temos papéis coloridos, também não devemos enfeitar as paredes da escola com mosaicos e vice-versa.
E o professor que ensina, mas não dá show, como fica nessa? E as escolas que não conseguem compor quadros de professores criativos e carismáticos, que tipo de ensino conseguem promover? Afinal, o que é isso que o professor sem recursos e sem formação não consegue ensinar, por mais criativo, carismático e bem-intencionado que seja? Vamos observar alguns tópicos que somente o professor bem formado e com acesso a recursos consegue desenvolver com seus alunos a seguir.
Deixar claro aos alunos que a escola faz parte do mundo em que vivem e formar para ele
O principal e, na realidade, o único motivo pelo qual os recursos tecnológicos são imprescindíveis em uma escola é que eles já fazem parte da vida fora dela. A tecnologia já modificou “as maneiras de viver, de se divertir, de se informar, de trabalhar e de pensar” (Perrenoud, 2000, p. 139). Sendo assim, a escola não pode se dar ao luxo de excluir a tecnologia do seu ambiente, sob o risco do seu aluno não conseguir ver a relação entre o que aprende ali, o seu modo de vida e o seu eventual trabalho no futuro.
Aprender a pesquisar na rede
Se é necessário saber pesquisar na Internet para obter as mais variadas informações para viver bem no mundo de hoje, isso significa que os alunos devem aprender a pesquisar na rede na própria escola. A pesquisa na Internet exige um maior grau de seletividade do que uma pesquisa em livros e também exige agilidade na escolha de palavras-chave. Sendo essas habilidades essenciais para realizar a busca de informações na sociedade atual, não faz sentido que exatamente isso que todo mundo precisa saber fazer bem o aluno aprenda “com a vida” e que a escola se ocupe somente de pesquisa em bibliotecas ou, pior ainda, de nenhum tipo de pesquisa. Observem que, também para realizar pesquisa em livros, jornais, revistas e bibliotecas, o quadro e giz não bastam como recurso.
Ler e produzir hipertextos e textos, gráficos e imagens digitais
As novas tecnologias trouxeram consigo um novo tipo de texto: o hipertexto, repleto de links (elos) entre diferentes tipos de informação. O cidadão do século XXI precisa saber ler esse tipo de texto, isto é, precisa desenvolver estratégias para localizar as informações que deseja. Também precisa saber produzi-lo. Mais uma vez, a escola não pode estar alheia à leitura e à produção desse tipo de texto, que, apesar de ser possível aprender em casa, com os amigos ou em cursos extras, não é tão intuitiva quanto parece. Todo tipo de texto digital, além de poder ser formatado de modo a ficar muito bem acabado, permite associar tabelas, gráficos, desenhos, fotos e o que mais se conseguir imaginar. Por que esse tipo de texto, tão rico e motivador, só deveria circular fora da escola, deixando para ela o quadro, o giz, o caderno e o livro didático e os manuscritos mais variados? Vale lembrar que, com as novas tecnologias, qualquer pessoa pode criar esses textos extremamente ricos, com recursos expressivos e informativos muito variados. Portanto, os alunos devem praticar a sua produção já na escola, sem esperar pelas exigências do mercado de trabalho e sem achar que os textos que produzem com os amigos são muito mais interessantes que os da escola. Para ler e produzir hipertextos e textos digitais, precisarão de computadores. Não há alternativa.
Encontrar fontes de pesquisa atualizadas e cada vez mais ricas
Um bom professor também precisa se atualizar constantemente. Como fazer isso sem ter acesso à Internet, a livros, revistas, jornais, bibliotecas e cursos? Essas fontes de atualização são complementares e não excludentes. O que não dá é para achar que, no século XXI, em que as necessidades de informação mudam tão rapidamente, o professor pode exercer bem o seu papel sem se atualizar em termos de conhecimento do mundo e conhecimentos pedagógicos. E, para se informar, mais uma vez, são necessários recursos e não somente boa vontade.
Comunicar-se com pessoas distantes
Para se comunicar com pessoas distantes, também são necessárias ferramentas de informática, e o conceito de que a educação pode ser muito enriquecida quando há troca de informações e experiências se dá entre pessoas que estão fora do contexto imediato da sala de aula. Usar a Internet é o meio mais simples de “pular o muro da escola” ou de abrir a porta da sala de aula. Para estabelecer essas trocas tão diversas, também se pode pensar em fazer e receber visitas, trocar correspondência pelo correio normal ou pendurar cartazes fora da sala de aula. Mas, sem recursos, formação e informação, não é possível estabelecer nenhuma troca relevante com ninguém.
Conhecer os riscos da Web e ensinar os alunos a se defender deles
Outra novidade do mundo digital que tem de ser contemplada pela escola são os riscos da Internet livre. Os jovens vão se comunicando com as mais variadas pessoas e nem imaginam os riscos que correm. É preciso orientá-los sobre como se comportar na rede, que tipos de informação jamais oferecer, conhecer os mecanismos de busca de informações seguras e refletir sobre o modo como interagem entre si na Web. Esse ponto pode ser trabalhado na base da conversa, mas, com acesso aos recursos para exemplificar o que o professor quer ensinar, fica muito mais fácil.
Lutar contra a exclusão digital e social
Até o momento, vínhamos refletindo sobre o papel da escola em um contexto em que os alunos têm acesso à tecnologia. Conseqüentemente, a escola também precisa incluir esses recursos em seu currículo para se integrar ao mundo e para permitir aos alunos que façam o melhor proveito dos recursos que precisam saber usar. É necessário, no entanto, também levar em consideração as escolas cujos alunos só têm ou teriam acesso à tecnologia nas suas próprias instituições de ensino. Trata-se dos alunos digitalmente excluídos, que não têm acesso ao computador fora da escola e que precisam aprender a usá-lo. Quanto a esse ponto, não pode haver nenhuma dúvida: esses alunos excluídos do mundo digital certamente farão parte das estatísticas de exclusão social no futuro, pois o mundo exige o domínio da tecnologia. Eles, mais do que ninguém, precisam ter acesso a recursos tecnológicos na escola para poder exercer a sua cidadania na sua vida pessoal e profissional, agora e mais tarde.
Perrenoud afirma que a inserção de tecnologia nas escolas tem um significado muito mais amplo do que saber usar o computador. Ele diz:
Formar para as novas tecnologias é formar o julgamento, o senso crítico, o pensamento hipotético e dedutivo, as faculdades de observação e de pesquisa, a imaginação, a capacidade de memorizar e classificar, a leitura e a análise de textos e de imagens, a representação de redes, de procedimentos e de estratégias de comunicação. (2000, p. 128)
E só é possível fazer tudo isso de maneira significativa para os alunos se tivermos acesso a recursos tecnológicos. Agora, uma tarefinha para encerrarmos o artigo: imaginem o que um professor criativo e carismático consegue fazer com seus alunos quando, além de dispor do seu talento inato para motivá-los, sabe o que fazer com recursos de primeira qualidade!
Referências bibliográficas
CAMPOS, Marcela. Diretora usa criatividade para reduzir abandono em 65%. Folha de S.Paulo, 1 ago. 2005, Caderno Trainee, p. 12.
CAMPOS, Marcela; BAPTISTA, Renata. Adaptar pedagogia ao aluno do século XXI. Folha de S.Paulo, 1 ago. 2005, Caderno Trainee, p. 12.
PERRENOUD, Philippe. 10 novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000.